Hoje, Saulzinho faria 86 anos

Em 2006, às vésperas do aniversário de 70 anos do Saulzinho, decidi buscar referências do seu passado de atleta na internet. E constatei que não haver quase nada. Para falar a verdade, havia apenas uma menção sobre ele em uma postagem sobre os artilheiros do Vasco da Gama ao longo do tempo, o que não dava conta de sua trajetória como jogador. Até o Russinho, da década de 1930, tinha mais espaço. Então, decidi criar um blog contando sua história: saulzinho70.blogspot.com.

A partir daí, iniciou-se um processo de busca de informações sobre o Saulzinho para resgatá-lo para o grande público. A começar pelo jornalista e apresentador Milton Neves, que me ligou pedindo o contato dele, alguns dias depois do blog estar online. Assim, Saulzinho passou a fazer parte do quadro “Que Fim Levou”, na televisão e na internet. Depois disso, com o impulso vindo da força do programa de tevê, as referências foram crescendo e ele meio que renasceu através da internet.

Hoje, dia 31 de outubro, Saulzinho estaria fazendo 86 anos. Tornei-me uma espécie de biógrafo dele e passei a cuidar do acervo de recortes de jornal e fotografias de futebol que ele guardou com cuidado durante anos. Materialmente, suas principais fotos já não existem mais. Foram perdidas ao longo do tempo – inclusive a joia da Coroa: o gol de bicicleta feito no América do México. No entanto – e por sorte! -, a revista Placar utilizou essa foto em uma reportagem na década de 1980 e foi possível fazer uma reprodução. Mesmo que com qualidade duvidosa da cópia escaneada, a foto foi bastante divulgada em diversos blogs.

A partir de hoje, pretendo colaborar para corrigir algumas informações equivocadas que estão publicadas na internet. A começar pela Wikipedia, que apresenta conteúdo sem fundamento e/ou com pouco conhecimento da realidade do antigo artilheiro. Já tentei fazer isso, logo assim que o Saulzinho faleceu, mas agora, com base em referências históricas (assim como exige a Wikipedia) e com maior sistemática, vou tentar resgatar a verdade, separando os fatos das suposições.

Nos últimos anos de vida, Saulzinho já não dava mais atenção ao futebol. Antes disso, assistíamos algumas partidas, mas não havia como esconder o ar de decepção quando nos deparávamos com a grande quantidade de passes errados de modo infantil ou com a forma desleixada que a maioria dos jogadores tratava a bola. Para quem jogou na época de ouro do futebol brasileiro, especialmente no eixo Rio-São Paulo, era difícil tolerar o que via. Mas, em vez de ficar reclamando com ares de saudosista, simplesmente Saulzinho foi perdendo o gosto e deixando de assistir futebol.  Acredito que a gota d’água tenha sido a tragédia com o time da Chapecoense, no final de 2016. Ele mal havia se mudado para Florianópolis e, a partir daí, foram raras as vezes que dava atenção a uma partida, mesmo que a tevê estivesse ligada na sua frente.

Na Copa de 2018, passava os olhos na tevê, nos jogos da seleção brasileira, mas não dava muita atenção. Chegamos a assistir duas finais de Copa pela televisão, a de 1994 e a de 2002 – ambas vencidas pelo Brasil. E ele, vibrou bastante, sem qualquer traço nostálgico.

Enquanto pode, gostava de contar suas histórias no futebol, especialmente as da época de Vasco da Gama. Sempre lembrava que não foi campeão de 1962 por culpa do atacante Jaburu, do Olaria, que venceu os cruzmaltinos nos dois jogos pelo Campeonato Carioca. Gostava também de falar da goleada de 4 a 1 que o Vasco impôs ao Flamengo, na final do Torneio Internacional IV Centenário, em 1965. Marcou dois gols. Para ele, foi seu melhor jogo na equipe cruzmaltina, embora já tivesse feito partidas em que anotou mais vezes. Mas era compreensível, já que foi a conquista de um título sobre o maior rival e, mais do que isso, a afirmação do artilheiro, que passou os dois anos anteriores convivendo com várias contusões e perdendo espaço na equipe.

Ele enchia a boca para falar: “No Flamengo eu gostava mesmo de fazer gols”.

Contava as suas viagens pelo mundo com riqueza de detalhes e jamais escondeu que ficou impressionado com o “Sol da Meia-Noite”, na Noruega, onde o Vasco fez a festa, goleando vários times. Falava sobre Garrincha com orgulho de ter visto um jogador que foi seu contemporâneo “deitando e rolando” para cima dos adversários, fossem gringos ou brasileiros. E falava com muita reverência sobre Pelé. Não analisava o Rei do Futebol pelos gols ou pelas belas jogadas, Mas pela velocidade de raciocínio e pelo seu vigor físico, qualidades que o diferenciaram como atleta.

Do Guarani de Bagé falava com muito carinho e grande admiração ao fato de ter sido vice-campeão gaúcho na sua época. Lembrava alguns companheiros, de vez em quando, e contava curiosidades sobre os jogos no interior riograndense. Recordava a má qualidade das chuteiras, dos uniformes e da própria bola, que se tornava “um chumbo” quando molhada e piorava ainda mais nos dias frios e chuvosos, quando uma bolada causava muita ardência e dor em quem a levava.

Esses dias ficaram no passado. E muita gente já se foi. Só que o futebol continua por aí, meio maltratado, meio sem brilho, mas ainda encantando muitos torcedores. Futebol sempre foi magia, encanto, emoção e, como dizia Saulzinho,  isso não tem preço.

“Ah, como era legal jogar no Maracanã lotado em dia de clássico e ver a torcida indo à loucura quando eu fazia um gol. Era mesmo de arrepiar.”

OBS – Escrevi esse texto para comemorar o aniversário de nascimento do Saulzinho. Sou seu genro, biógrafo e torcedor apaixonado pelo Fluminense – Alex Fernandes

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