Em destaque

A carreira de Saulzinho

Saul Santos foi um futebolista que nasceu em Bagé-RS (31 de outubro de 1937) e faleceu em Florianópolis (25 de julho de 2023). De família humilde, começou a jogar futebol muito cedo e logo ingressou no time do Grêmio Esportivo Bagé, que havia feito com ele um contrato “de gaveta”. Mas, após uma complicada reviravolta, que lhe custou um ano sem atuar, acabou defendendo as cores do arquirrival Guarany.

Disputou sua primeira partida profissional em 1954, contra o Nacional, de Porto Alegre, fazendo um gol de bicicleta. Artilheiro nato, acabou se destacando no campeonato gaúcho.

Em 1961, foi para o Rio de Janeiro, para atuar no Vasco da Gama, tendo a difícil missão de substituir o consagrado craque cruzmaltino Vavá. E acabou dando certo.

Em 1962, o craque sulista foi artilheiro do campeonato carioca, com 18 gols em 19 jogos. Nessa época, formou ataque com Lorico e Da Silva. Diversas contusões acabaram prejudicando sua carreira no futebol carioca, mas Saulzinho, sob conviver com os problemas e sempre dar a volta por cima.

Saulzinho gostava de lembrar que na década de 60, o Vasco fazia diversas excursões pelo mundo, o que o levou a conhecer quase toda Europa, a África e América. Deixou o Vasco em 1965, voltando para Bagé e encerrando sua carreira no Guarany.

Os registros e súmulas mostram que, como profissional, Saulzinho marcou 101 gols pelo Guarany de Bagé e outros 89 gols pelo Vasco da Gama, num total de 190 gols.

Segundo Saulzinho, jogar futebol na década de 1960 era muito complicado. “Os zagueiros eram mais violentos, a chuteira e a bola não eram tão boas quanto as de hoje e os campos eram muito esburacados”. Mesmo assim, o artilheiro lembrava da galeria de craques de seu time e dos adversários. “Tínhamos que enfrentar o Botafogo de Garrincha, o Flamengo de Jordan, o Fluminense de Castilho e Pinheiro ou o Santos de Pelé. Não tinha moleza nos anos 60.”

Morte

Saulzinho morreu no dia 25 de Julho de 2023, em Florianópolis, Santa Catarina, de uma parada cardiorrespiratória. Ele já havia sofrido um Acidente Vascular Cerebral (AVC) em março de 2017, mas se recuperou plenamente. Dois anos mais tarde, foi constatado que ele sofria de Mal de Alzheimer.

Há um ano, Vasco e Guarany perdiam um de seus principais artilheiros

Hoje (25-07-2024), faz um ano que o mundo do futebol perdeu o artilheiro Saulzinho. Durante esse período, esse site mergulhou em pesquisas para resgatar números, imagens e demais dados que atestassem seus marcos como atleta. Algumas hemerotecas esportivas foram consultadas e, como resultado, o número de gols de Saulzinho pelo Vasco da Gama, que anteriormente era 84, aumentou para 86 e, mais tarde, para 89 (batendo com a informação que também consta na Wikipédia).

Uma curiosidade: em conversas pessoais, Saulzinho por diversas vezes afirmou ter feito mais de 100 gols pelo Vasco. Segundo ele, havia muita confusão quanto à autoria dos gols cruzmaltinos nas excursões, sendo que muitas vezes as informações sobre os jogos no exterior eram transmitidas às redações de jornais por ligações telefônicas baixa qualidade, gerando várias distorções. Além disso, nem sempre havia súmula para consultas posteriores.

De acordo com Saulzinho, nos jogos amistosos isso sempre foi um grande problema. Outra questão complicada que ele ressaltava ocorria nos Torneios Início do futebol carioca, já que os gols não eram acrescentados à somatória total de tentos de seus autores.

Ainda assim, Saulzinho foi o segundo maior artilheiro do Vasco da Gama nos anos 1960, com 89 gols marcados em 179 partidas (apenas atrás de Célio, que anotou 109 gols em 199 jogos ). Além disso, ele é o 19° maior artilheiro da história do Club de Regatas Vasco da Gama, tendo anotado 34 gols em 1962.

Pelo Guarany de Bagé, Saulzinho anotou 101 gols, sendo o quarto maior artilheiro da história do clube até o momento. Ao todo, de acordo com a estatísticas oficiais, ele anotou 190 gols. Porém, pelas suas estatísticas pessoais, foram mais de 200. Obviamente, não há como saber qual o número mais preciso, portanto, para evitar controvérsias, esse site vai sempre utilizar os números oficiais. Mas fica registrada a ressalva.


Dupla de baixinhos

Um dos grandes parceiros de ataque de Saulzinho no Vasco foi o baiano Viladônega (faleceu em 2 agosto de 2022). Uma dupla de baixinhos, lançada pelo técnico Paulo Amaral, que sempre fazia questão de destacar o entrosamento perfeito entre os dois jogadores e a importância disso para o seu esquema tático.

O blog Tardes de Pacaembu destaca o nascimento da dupla, que chegou a ganhar destaque na edição de 20 de janeiro de 1962 da Revista do Esporte, número 150, com o título “Saulzinho e Viladônega provam que os baixinhos podem brigar até com os zagueiros grandalhões”.

Segundo a postagem do blog, “na mesma reportagem também ficou evidente o clima de preocupação entre os torcedores, pois nenhum dos dois, jogando pelo meio, era dono de um físico capaz de suportar os trancos em divididas.”

Hoje, Saulzinho faria 86 anos

Em 2006, às vésperas do aniversário de 70 anos do Saulzinho, decidi buscar referências do seu passado de atleta na internet. E constatei que não haver quase nada. Para falar a verdade, havia apenas uma menção sobre ele em uma postagem sobre os artilheiros do Vasco da Gama ao longo do tempo, o que não dava conta de sua trajetória como jogador. Até o Russinho, da década de 1930, tinha mais espaço. Então, decidi criar um blog contando sua história: saulzinho70.blogspot.com.

A partir daí, iniciou-se um processo de busca de informações sobre o Saulzinho para resgatá-lo para o grande público. A começar pelo jornalista e apresentador Milton Neves, que me ligou pedindo o contato dele, alguns dias depois do blog estar online. Assim, Saulzinho passou a fazer parte do quadro “Que Fim Levou”, na televisão e na internet. Depois disso, com o impulso vindo da força do programa de tevê, as referências foram crescendo e ele meio que renasceu através da internet.

Hoje, dia 31 de outubro, Saulzinho estaria fazendo 86 anos. Tornei-me uma espécie de biógrafo dele e passei a cuidar do acervo de recortes de jornal e fotografias de futebol que ele guardou com cuidado durante anos. Materialmente, suas principais fotos já não existem mais. Foram perdidas ao longo do tempo – inclusive a joia da Coroa: o gol de bicicleta feito no América do México. No entanto – e por sorte! -, a revista Placar utilizou essa foto em uma reportagem na década de 1980 e foi possível fazer uma reprodução. Mesmo que com qualidade duvidosa da cópia escaneada, a foto foi bastante divulgada em diversos blogs.

A partir de hoje, pretendo colaborar para corrigir algumas informações equivocadas que estão publicadas na internet. A começar pela Wikipedia, que apresenta conteúdo sem fundamento e/ou com pouco conhecimento da realidade do antigo artilheiro. Já tentei fazer isso, logo assim que o Saulzinho faleceu, mas agora, com base em referências históricas (assim como exige a Wikipedia) e com maior sistemática, vou tentar resgatar a verdade, separando os fatos das suposições.

Nos últimos anos de vida, Saulzinho já não dava mais atenção ao futebol. Antes disso, assistíamos algumas partidas, mas não havia como esconder o ar de decepção quando nos deparávamos com a grande quantidade de passes errados de modo infantil ou com a forma desleixada que a maioria dos jogadores tratava a bola. Para quem jogou na época de ouro do futebol brasileiro, especialmente no eixo Rio-São Paulo, era difícil tolerar o que via. Mas, em vez de ficar reclamando com ares de saudosista, simplesmente Saulzinho foi perdendo o gosto e deixando de assistir futebol.  Acredito que a gota d’água tenha sido a tragédia com o time da Chapecoense, no final de 2016. Ele mal havia se mudado para Florianópolis e, a partir daí, foram raras as vezes que dava atenção a uma partida, mesmo que a tevê estivesse ligada na sua frente.

Na Copa de 2018, passava os olhos na tevê, nos jogos da seleção brasileira, mas não dava muita atenção. Chegamos a assistir duas finais de Copa pela televisão, a de 1994 e a de 2002 – ambas vencidas pelo Brasil. E ele, vibrou bastante, sem qualquer traço nostálgico.

Enquanto pode, gostava de contar suas histórias no futebol, especialmente as da época de Vasco da Gama. Sempre lembrava que não foi campeão de 1962 por culpa do atacante Jaburu, do Olaria, que venceu os cruzmaltinos nos dois jogos pelo Campeonato Carioca. Gostava também de falar da goleada de 4 a 1 que o Vasco impôs ao Flamengo, na final do Torneio Internacional IV Centenário, em 1965. Marcou dois gols. Para ele, foi seu melhor jogo na equipe cruzmaltina, embora já tivesse feito partidas em que anotou mais vezes. Mas era compreensível, já que foi a conquista de um título sobre o maior rival e, mais do que isso, a afirmação do artilheiro, que passou os dois anos anteriores convivendo com várias contusões e perdendo espaço na equipe.

Ele enchia a boca para falar: “No Flamengo eu gostava mesmo de fazer gols”.

Contava as suas viagens pelo mundo com riqueza de detalhes e jamais escondeu que ficou impressionado com o “Sol da Meia-Noite”, na Noruega, onde o Vasco fez a festa, goleando vários times. Falava sobre Garrincha com orgulho de ter visto um jogador que foi seu contemporâneo “deitando e rolando” para cima dos adversários, fossem gringos ou brasileiros. E falava com muita reverência sobre Pelé. Não analisava o Rei do Futebol pelos gols ou pelas belas jogadas, Mas pela velocidade de raciocínio e pelo seu vigor físico, qualidades que o diferenciaram como atleta.

Do Guarani de Bagé falava com muito carinho e grande admiração ao fato de ter sido vice-campeão gaúcho na sua época. Lembrava alguns companheiros, de vez em quando, e contava curiosidades sobre os jogos no interior riograndense. Recordava a má qualidade das chuteiras, dos uniformes e da própria bola, que se tornava “um chumbo” quando molhada e piorava ainda mais nos dias frios e chuvosos, quando uma bolada causava muita ardência e dor em quem a levava.

Esses dias ficaram no passado. E muita gente já se foi. Só que o futebol continua por aí, meio maltratado, meio sem brilho, mas ainda encantando muitos torcedores. Futebol sempre foi magia, encanto, emoção e, como dizia Saulzinho,  isso não tem preço.

“Ah, como era legal jogar no Maracanã lotado em dia de clássico e ver a torcida indo à loucura quando eu fazia um gol. Era mesmo de arrepiar.”

OBS – Escrevi esse texto para comemorar o aniversário de nascimento do Saulzinho. Sou seu genro, biógrafo e torcedor apaixonado pelo Fluminense – Alex Fernandes

Saulzinho x Pelé

No blog Kike da Bola, de 21 de janeiro de 2021, há uma postagem que compara o enfrentamento entre Saulzinho e Pelé. Eles se cruzaram apenas em duas oportunidades, ambas pelo Torneiro Rio-São Paulo, a maior competição brasileira da década-1960, e no Maracanã: em Vasco 2 x 2 Santos, de 16 de fevereiro de 1963, e nos 3 x 0 cruzmaltinos do 4 de abril de 1965.

Referência: https://kikedabola.blogspot.com/2021/01/blog-post_90.html

Obs: a imagem da Revista do Esporte é uma montagem feita pelo blog Kike da Bola, com caráter meramente ilustrativo, e reformulada pelo site Saulzinho.com.

Pulando numa perna só

Em seu auge no Vasco da Gama (1962), Saulzinho deu um grande susto no treinador Jorge Vieira durante um bate-bola em São Januário. Era véspera do seu aniversário (31/10) e o time se aprontava para enfrentar o Botafogo. Meses antes, o centroavante vascaíno havia ficado, 44 dias sem jogar devido a uma distensão, mas tudo corria bem. Até que Saulzinho saiu pulando numa perna só no gramado por alguns minutos minutos. O técnico viu aquilo de longe e se aproximou, perguntando o que havia acontecido.

“Chutei um tufo de grama”, disse o artilheiro, ainda mancando. “Mas já vai passar, já vai passar”, complementou, para em seguida voltar normalmente ao treino, tirando um peso das costas do treinador que, certamente deve ter arrancado alguns fios de cabelo.

Resultado do jogo: 1 x 1.

Botafogo 1-1 Vasco
Local: Maracanã
Juiz: Armando Marques
Renda: Cr$ 10.077.210,00
Gols: Quarentinha e Sabará 68′
Botafogo: Manga, Joel, Zé Maria e Rildo; Nilton Santos e Airton; Garrincha, Arlindo, Quarentinha, Amarildo e Zagalo. Técnico: Marinho Rodrigues
Vasco: Humberto (Ita), Paulinho, Brito e Coronel; Maranhão e Barbosinha; Sabará, Saulzinho, Viladoniga, Lorico e Da Silva. Técnico: Jorge Vieira

Muitas contusões à frente do ataque vascaíno

Ao longo de sua permanência no elenco do Vasco, Saulzinho conviveu com várias contusões. Foram oito no total, entre distensões na coxa e virilha, operação de varizes, contusão no braço, problemas na sola do pé. Passou muito tempo no Departamento Médico e, com isso, foi cedendo espaço a outros atacantes. Ainda assim, não perdeu a titularidade, o que ocorreu apenas em 1965, quando teve que disputar uma vaga no ataque titular com jogadores mais jovens e, por vezes, ficou no banco de reservas.

Mesmo na reserva, quando entrava, quase sempre deixava sua marca, empurrando a bola para as redes adversárias. Devido às suas boas atuações, o Belenense de Portugal fez uma proposta ao Vasco para comprar o atacante por CR$ 60 milhões (uma bolada naquela época). No entanto, a transação não se concretizou, já que o representante do clube português condicionou a compra do centroavante vascaíno à sua eleição (que deveria ocorrer dali a um mês).

Saulzinho, por sua vez, preferiu seguir em terras brasileiras e, atendendo a um pedido de sua esposa (que estava grávida), voltou ao futebol gaúcho, retornando ao Guarani de Bagé, clube que o revelou.

Esse post foi escrito com base nas reportagens do jornal Correio da Manhã. Abaixo, uma reportagem da Revista do Esporte sobre a volta de Saulzinho aos gramados, em 1964.

Revista do Esporte – nº 280 – de 18 de julho de 1964

Fiz três gols de pênalti no Castilho

Vasco e Fluminense são os maiores vencedores do Torneio Início do Campeonato Carioca, cada um com 10 títulos (embora o tricolor, de acordo com algumas referências, tenha 9 títulos, já que, usando a fidalguia, verificou ter infringido o regulamento da competição de 1927, o que o fez enviar um ofício à Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA), pedindo a anulação do certame).

Nos anos 1960, quando houve sete edições da competição, o domínio foi do Botafogo, que venceu quatro vezes, enquanto Fluminense, Bangu e Olaria conquistaram uma edição cada um. Flamengo e Vasco não venceram, mas Saulzinho tinha uma boa história para contar desse torneio. Ele não lembrava direito o ano, mas houve uma decisão por pênaltis entre Vasco e Fluminense para ver quem seguiria adiante. O regulamento estipulava que os jogos tivessem dois tempos de 20 minutos e, em caso de empate, o resultado final deveria ser decido através de penalidades máximas, com três cobranças intercaladas para cada time e, detalhe, utilizando o mesmo batedor.

“Foi aí que eu apareci. Tive que enfrentar o Castilho, o melhor goleiro do Rio e um dos melhores do Brasil naquela época. Com essas credenciais eu poderia ficar assustado. Mas não foi isso que ocorreu. Enfiei as três bolas no filó do goleirão e o Vasco eliminou o Fluminense”, relatou Saulzinho.

Ainda assim, mais adiante, o Vasco tropeçou e também ficou pelo caminho na competição, dominada pelo time de Garrincha.

O Jogo do Rei?

Um dos jogos mais icônicos do futebol brasileiro ocorreu no dia 16 de fevereiro de 1963. Em pleno Maracanã, o Vasco vencia o poderoso Santos de Pelé por 2 a 0. Apesar de não ter marcado seu gol, Saulzinho disputou a partida, que ficou conhecida como “O Jogo do Rei”.

“Eu ficava lá na frente, mas percebi que o Brito e o Fontana estavam pegando no pé do Pelé, só que, com o calor do jogo e a torcida fazendo barulho, não ouvi nada do que eles diziam”, contou o centroavante cruzmaltino.

Segundo consta em várias reportagens, Fontana tentou perturbar Pelé o jogo inteiro, especialmente no final, quando acreditou que o resultado já estava resolvido: “Brito, a minha mãe disse que o Rei vinha hoje no Maracanã e pediu-me para levar uma lembrança. Você viu algum “Rei” por aí? …”, perguntava alto e sorridente o Fontana, buscando Pelé com olhar matreiro.

“- Não tou vendo ninguém de coroa, Fontana, não tô vendo não!”…respondeu Brito.

Aquilo foi mexendo com a fera, que saiu do meio e foi atuar pelo lado direito do campo, para atrair as marcações para si, e abrir espaços pelo meio e pela esquerda do ataque santista.

E as provocações não paravam:

– Então Brito, você viu o Rei por aí?

-Vi não Fontana, vi não, acho que fugiu!

E o “Rei” se desdobrava, recuando, buscando jogo, tabelando com seus pares, driblando, chutando, fazia das tripas coração, mas as coisas continuavam não dando certo.

Só que, faltando 5 minutos para o fim da partida, já calculando que o Vasco venceria o jogo, as provocações dos dois “xerifes” continuavam.

Um minuto depois, num ataque do time santista, o ponta esquerda Pepe pelo lado esquerdo, viu Pelé do outro lado completamente livre e fez um lançamento milimétrico pelo alto que Pelé emendou de primeira e estufou as redes do Vasco, diminuindo a diferença.

Faltavam ainda 3 minutos para jogar.

Mal recomeçou a partida, Pelé roubou a bola na sua própria intermediária, e saiu driblando tudo e todos que lhe apareceram pela frente, e entrou com bola e tudo, fazendo 2 x 2!

Aí foi ao fundo das redes, apanhou a pelota. Ao passar pelo Fontana, no meio do caminho, entregou-lhe a bola dizendo:

“- Toma aí, Fontana! Leva pra tua mãe de presente”, disse Pelé, que rechaçou a versão corrente, a que diz que ele falou “Leva pra tua mãe de presente e diz que foi o Rei quem mandou.”

De acordo com o jornalista Gustavo Mariani, responsável pela coluna Histórias da Bola, do Jornal de Brasília, Saulzinho lhe contou uma história interessante, do Jogo do Rei. pelo Torneio Rio São Paulo, logo após o Vasco abrir 2 x 0, em 57 minutos: “Naquela noite, um conterrâneo meu estava no Rio de Janeiro e aproveitou para me ver jogar. Saiu do estádio, uns cinco minutos antes do final da partida, pegou um táxi e disse para o motorista: ‘Que bom. Vi o meu amigo Saulzinho jogar e a vitória do Vasco’. Então, o cara avisou-lhe: “Sinto muito, mas o jogo terminou 2 x 2”, contou Saulzinho.

Referências

https://pelethebest.blogspot.com/2014/03/diz-ela-que-foi-o-rei-quem-mandou.html

https://www.santosfc.com.br/memoria-apos-provocacoes-pele-marcava-dois-gols-contra-o-vasco-no-maracana/

Crédito da foto – CBF

Doze gols e a conquista da torcida

Saulzinho chegou ao Vasco da Gama em 1º de abril de 1961. Cinquenta dias mais tarde, fez sua estreia em solo internacional, numa excursão do Vasco à Europa (Alemanha, Noruega, Dinamarca, Suécia e Portugal), em que os cruzmaltinos atuaram 14 vezes, somando 12 vitórias, um empate e uma derrota, anotando 56 gols  (média de 4 gols/jogo) e sofrendo 12.

Foram seis goleadas, incluindo um 11 a 0 contra a Seleção de Trondheim (Noruega), jogo em que Saulzinho anotou três gols, e um 10 a 0 no Eik IF (Noruega), em que ele marcou duas vezes. Com toda essa chuva de gols, Saulzinho começou a encantar o torcedor vascaíno, já que anotou 12 tentos em 11 jogos nessa excursão.

Na Noruega viu a aurora boreal, que o impressionou bastante. Da Suécia guardou a recordação de ter atuado no lendário Estádio Råsunda, onde a seleção brasileira conquistou o seu primeiro campeonato mundial. “Que viagem! Jogamos muita bola e só perdemos (3 a 0) na última partida, para o Benfica, que jogou em casa e tinha um timão, que viria a ser vice-campeão do mundo um ano depois (foi derrotado na final pelo Santos por 5 a 2).”

Os gols de Saulzinho

Bodens – 8 a 1 – 1 gol
Malmoe – 4 a 1 – 1 gol
BK Frem – 4 a 1 – 2 gols
EIK – 10 a 0 – 2 gols
Tordheim – 11 a 0 – 3 gols
Hensinborg – 5 a 1 – 2 gols
Norrkoping – 1 a 0 – 1 gol

Na foto do Correio da Manhã, o capitão Bellini

Fonte – Papo da Colina (https://www.netvasco.com.br/n/279303/vasco-fez-excursao-a-escandinavia-em-1961-conheca-a-historia)

Caminhada do Vasco ao Largo da Cancela

Todos que conheceram Saulzinho sabem o quanto ele gostava de caminhar. Mesmo idoso, ele realizava caminhadas de 6 quilômetros diariamente, às vezes mais. Quando jogava no Vasco, seu hábito não era diferente. Após o treino, costumava caminhar do clube até o Largo da Cancela (bairro de São Cristóvão) e depois voltar. O percurso de ida-e-volta tem 2 km, o que leva cerca de 25-30 minutos para se perfazer a pé.

Numa dessas caminhadas, já à noite, Saulzinho próximo do clube, ouviu passos atrás dele e sentiu-se perseguido. À medida que percebeu que os passos do seu ‘perseguidor’ estavam mais acelerados, ele acelerou também. E foi acelerando, acelerando até que saiu correndo em direção a um portão de entrada do clube, o escalou e se sentiu em segurança.

Segundo dizia Saulzinho, mesmo naquela época não dava para dar sopa para bandido. Apesar do ‘incidente’, ele continuou com as suas caminhadas até a Cancela, até que deixou de dormir no clube e foi morar em Copacabana.

Já morando em Florianópolis, Saulzinho refez o trajeto pela Rua São Januário através do Google Maps. Reconheceu várias edificações da sua época, que hoje convivem com prédios mais modernos. Gostava de recordar do Rio de Janeiro com o auxílio dessa tecnologia, que lhe mostrava que a passagem do tempo não havia apagado da realidade uma boa parte de suas recordações.

Foto do Portal do Largo da Cancela – Wikipedia

Chacrinha e o colar de bacalhaus

No início dos anos 60, a TV Rio, localizada na Avenida Atlântica, 4264, Copacabana, era vizinha de Saulzinho, que residia na mesma altura do bairro, só que na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. No auge do sucesso, repleta de grandes artistas, a emissora mantém até hoje um recorde de audiência de 99,6% com o programa Buzina do Chacrinha. Saulzinho, que vinha encantando os vascaínos em 1962, foi convidado por um dos mais ilustres cruzmaltinos a participar do programa: o próprio Chacrinha.

Ele contava que o Velho Guerreiro fez uma grande festa para recepcioná-lo no palco, que teve como ponto alto a entrega de um pequeno fardo de bacalhaus, amarrados pela cauda em forma de colar, que o próprio Chacrinha colocou no pescoço do artilheiro do seu time de coração. Uma peculiaridade na vida do atacante que ele guardou na memória até seus últimos dias.

O conquistador de Motorádios

Saulzinho, que sempre gostou muito de ouvir rádio, inclusive nos derradeiros anos de sua vida, conquistou alguns Motorádios durante os cinco anos de sua passagem pelo Vasco da Gama. Essa era a premiação dada pela TV Tupi ao melhor jogador da partida. “Não me lembro o que fiz com os rádios, mas não fiquei com nenhum deles”, recordava o craque vascaíno.

Oficialmente não se sabe quantos Motorádios foram entregues e nem o jogador que mais acumulou as premiações, embora seja quase consenso que Pelé foi o maior ganhador.

Um dedão tão bom quanto um novo

O ano de 1963 foi recheado de viagens do Vasco para o exterior. Nessa época, Saulzinho conheceu 10 países durante três excursões, que eram realizadas pelas equipes brasileiras com o objetivo de faturar um dinheiro extra, já que o calendário naquela época era bem mais folgado. Aproveitando a onda do bicampeonato mundial da seleção brasileira, diversos clubes se aventuraram em solo internacional.

O Vasco, por exemplo, realizou 25 jogos internacionais, vencendo 14, empatando 7 e perdendo 4 partidas. De quebra, levou para São Januário a taça do Pentagonal do México. Foram visitados os seguintes países: Costa Rica, México e El Salvador (entre 06 de janeiro e 10 de fevereiro de 1963); Chile (entre 31 de março e 14 de abril de 1963); e Costa do Marfim, Gana, Nigéria, Sudão, Portugal, Espanha (entre 5 de maio a 25 de junho de 1963).

Saulzinho dizia que os africanos não tinham muita tática e nenhuma estratégia de jogo, mas corriam feito loucos atrás da bola e isso fazia com que os jogos fossem muito duros. Ele contava que na Nigéria, após ter se contundido na vitória de 6 a 0 contra a seleção local (25/05/63), quando marcou quatro gols e ainda teve um outro equivocadamente anulado, não iria jogar a partida seguinte, 24 horas depois, contra a Seleção da África Ocidental, já que o seu dedão do pé direito havia sido pisado com muita força por um  zagueiro nigeriano e ficou muito inchado.

No vestiário, o médico do Vasco, Dr. Waldir Luz, olhando aquele dedo inchado e cheio de sangue por baixo da unha, de imediato o proibiu de jogar. Mas ele queria atuar de qualquer maneira. E foi aí que a solução veio do outro vestiário. O médico da seleção africana, que junto com alguns dirigentes fez visita de cortesia à equipe vascaína, descobriu que o centroavante adversário não iria jogar. Então, ele olhou para aquele dedão inchado, abriu sua maleta, pegou um bisturi e pediu para intervir – afinal, Saulzinho foi a estrela do jogo anterior e não poderia ficar fora do confronto. Receoso, o médico brasileiro, meio na dúvida, titubeou, mas Saulzinho insistiu que queria jogar. “Então, o médico africano abriu minha unha com o bisturi, e todo o sangue escorreu. Ele colocou uma gaze com esparadrapo no dedão, que ficou tão bom quanto um novo.”

Nesse dia, mesmo com o time muito cansado, Saulzinho ajudou o Vasco a vencer o jogo por 3 a 1.

A história contada por Saulzinho diverge do que foi divulgado pelo site Papo da Colina quanto a autoria dos gols na goleada por 6 a 0 na Seleção da Nigéria. De acordo com o atacante vascaíno, nesse jogo ele fez cinco gols, mas um deles foi mal anulado. “Foi em um lance limpo, sem qualquer impedimento, ou outro problema. Nada, nada, tchê! A bola bateu lá dentro e voltou. Ninguém entendeu a anulação”, contou Saulzinho.

Em entrevista ao jornalista Gustavo Mariani, publicada no Jornal de Brasília (e também no site História do Futebol e no blog Saulzinho 70) , Saulzinho afirmou ter marcado quatro gols nesse jogo. No entanto, o site Papo da Colina afirma que Saulzinho marcou somente um gol, Lorico outro e Célio mais quatro. O site da NetVasco, por sua vez, atribui a autoria de quatro gols a Saulzinho (https://www.netvasco.com.br/n/128815/ha-50-anos-vasco-derrotava-a-selecao-da-nigeria-durante-excursao-a-europa-e-a-africa).

Foto – Site Papo na Colina (https://paponacolina.com.br/africa-conheca-a-excursao-do-gigante-da-colina-pelo-continente-em-1963/)

Saul Santos Silva ou Saul Santos?

Diversas publicações utilizam o nome Saul Santos Silva, mas na verdade, ele se chamava Saul Santos. A confusão é comum. Tudo começou quando foi registrado pelo pai, Manoel Santo Silva. Deveria chamar-se Saul Santo Silva, mas o cartorário fez uma grande confusão (o que era bastante comum naquela época) e registrou o futuro artilheiro como Saul Santos – suprimindo o sobrenome Silva e criando um novo, Santos. E, pelo jeito, a certidão de nascimento não foi conferida na hora.  

Os anos se passaram, a criança cresceu e surgiu o senso de pertencimento à sua família, fazendo com que Saulzinho passasse a assinar Saul Santos Silva em diversas ocasiões extraoficiais. Exatamente por isso, várias pessoas e amigos acreditavam que seu sobrenome fosse Santos Silva. Mas, evidentemente, na Carteira de Identidade e nos demais documentos, constava o nome de registro correto e a sua correspondente assinatura.

Essa confusão ganhou espaço até na internet. Em novembro de 2006, em entrevista ao blog Saulzinho 70, criado em sua homenagem, ele pediu para que fosse usado o nome Saul Santos Silva. Mais tarde, em entrevista ao site Terceiro Tempo, confirmou esse mesmo nome ao jornalista Milton Neves, fazendo o mesmo quando foi entrevistado pelo jornalista Gustavo Mariani, do Jornal de Brasília e blog História do Futebol. A partir dessas três fontes, o nome Saul Santos Silva foi publicado em todo lugar, inclusive na Wikipedia.

O blog Saulzinho 70 (http://saulzinho70.blogspot.com/) é a primeira grande referência sobre o artilheiro na internet, embora o site NetVasco (https://www.netvasco.com.br/mauroprais/vasco/artil.html#estadual), já tivesse citado anteriormente o nome Saulzinho em sua lista de artilheiros cruzmaltinos).

Esse tal de Jaburu…

Uma das histórias que Saulzinho gostava de contar era sobre o Campeonato Carioca de 1962, em que foi artilheiro com 18 gols em 19 jogos. Isso já deveria ser suficiente para se vangloriar com o feito, mas ele queria mais: queria aquele título, que acabou ficando com o Botafogo, enquanto o Vasco, com quatro pontos a menos, amargurou a quarta posição, atrás também do Flamengo, vice-campeão, e do Fluminense.

“Quem nos tirou o título foi o Olaria. E o grande culpado foi o Jaburu. Nos meteu três gols. Não fazia gol em ninguém, mas naquele dia foi infernal, nos enfiou três. Três gols!!! Perdemos no primeiro e no segundo turno para o Olaria. Se tivéssemos vencido, o que seria um resultado normal, a gente teria quatro pontos a mais, ficaríamos empatados com o Botafogo mas teríamos pelo menos dois gols a mais de saldo”, contava.

E, de fato, foi o que ocorreu. O Botafogo somou 39 pontos, obteve 17 vitórias e um saldo de 35 gols. Já o Vasco somou 35 pontos, 15 vitórias e saldo de 32 gols. Se vencesse o Olaria as duas vezes, teria 39 pontos e um saldo de pelo menos 37 gols.

Curiosamente, o único time grande que venceu o Botafogo foi o Vasco, por 1 a 0 no primeiro turno (04/08/62). No segundo turno, houve um empate em 1 a 1 (02/11/62). Além do Vasco, somente o Campo Grande derrotou os alvinegros (1 a 0, em 01/07/62).

Apenas para constar, o Olaria tinha um grande time naquele ano, tendo inclusive empatado com o Botafogo em 2 a 2 (22/07/62). Não foi à toa que terminou a competição em sexto lugar, atrás do forte Bangu e à frente do América, que era considerado com a quinta força do futebol carioca naquela época.

Como foram os jogos

Primeiro Turno

Olaria 1-0 Vasco
Local: Rua Bariri
Juiz: José Gomes Sobrinho
Renda: Cr$ 419.450,00
Gol: Waldemar 57′
Expulsão: Rodarte
Olaria: Ernani, Murilo, Navarro e Casemiro; Nelson e Haroldo; Valter, Cané, Rodarte, Waldemar e Romeu. Técnico: Davi Ferreira, o Duque
Vasco: Humberto, Paulinho, Brito e Dario; Laerte e Barbozinha; Joãozinho, Vevé, Saulzinho, Lorico e Tiriça. Técnico: Jorge Vieira

Segundo Turno

Vasco 1-3 Olaria
Local: São Januário
Juiz: Gualter Gama de Castro
Renda: Cr$ 1.205.910,00
Gols: Saulzinho 20′, Jaburu 51′, 55′ e 85′
Vasco: Humberto, Paulinho, Brito e Coronel; Maranhão e Barbosinha; Sabará, Vevé, Lorico, Saulzinho e Da Silva. Técnico: Jorge Vieira
Olaria: Ernani, Murilo, Décio e Casimiro; Nelson e Haroldo; Valter, Jaburu, Rodarte, Valdemar e Romeu. Técnico: Davi Ferreira, o Duque